Quem sou eu

Minha foto
Foz do Iguaçu, Paraná, Brazil

segunda-feira, 30 de março de 2026

ANTES DA QUEDA

Texto inspirado em reflexão publicada em coletânea da Editora Publicações Pão Diário Há momentos em que a ruína não chega fazendo barulho. Ela se anuncia devagar, quase em silêncio, como uma pequena desordem interior que a pessoa prefere não perceber. Raramente alguém se perde de uma vez. Em geral, tudo começa com negligências discretas: um limite que deixa de ser respeitado, uma vaidade que passa a ser alimentada, uma desculpa que parece pequena demais para causar dano. Aos poucos, o senso de medida enfraquece. O cuidado cede lugar à autoconfiança excessiva. E o que antes parecia firme começa, sem alarde, a se deslocar por dentro. A vida costuma cobrar atenção constante. Não basta desejar acertar; é preciso vigiar a própria conduta. O ser humano traz em si qualidades admiráveis, mas também impulsos, fragilidades e inclinações que pedem contenção. Por isso, o equilíbrio não nasce espontaneamente. Ele depende de consciência, disciplina, prudência e, acima de tudo, da capacidade de reconhecer que ninguém está acima do erro. Muitas vezes, o que derruba uma pessoa não é a falta de força, mas o excesso de certeza. Quando alguém passa a crer que já não precisa mais rever os próprios passos, torna-se menos atento aos sinais de desgaste moral. É nesse ponto que o risco cresce. A queda, então, deixa de ser um acidente inesperado e passa a ser o desfecho de uma série de concessões feitas sem resistência. Talvez a maturidade consista exatamente nisso: compreender que permanecer de pé exige mais do que coragem aparente. Exige honestidade consigo mesmo. Exige o hábito de examinar pensamentos, intenções e escolhas. Exige humildade para admitir que até os mais experientes podem tropeçar quando se afastam da vigilância interior. Ninguém se mantém íntegro apenas pela imagem que projeta. A firmeza verdadeira nasce do cuidado invisível, daquele trabalho silencioso de corrigir a si mesmo antes que o erro ganhe forma. Quem cultiva essa atenção talvez não evite todos os tropeços da vida, mas reduz bastante o perigo de colaborar com a própria queda.